 |
Nossos Atletas Olímpicos
VANDERLEI CORDEIRO DE LIMA
O pódio mais heróico
Na terra de Feidípedes, maratonista brasileiro deu show de garra e fair play.
Vanderlei Cordeiro de Lima tem uma medalha olímpica na maratona, o bronze conquistado nos Jogos de Atenas. Naquele dia 29 de agosto de 2004, Vanderlei foi apresentado ao mundo como herói. Ele driblou a adversidade da agressão de um desequilibrado mental, o calor e ainda deu show de fair play. Vanderlei ganhou a 13ª medalha olímpica do atletismo nacional, numa disputa marcante – levada a efeito no percurso lendário feito pelo soldado Feidípedes, no século V a.C., para anunciar a vitória dos gregos sobre os persas. Antes de Atenas, o melhor resultado do Brasil na maratona era o 10º lugar de Luiz Antonio dos Santos, nos Jogos de Atlanta, em 1996.
Vanderlei havia disputado os Jogos de Atlanta e Sydney 2000, mas foi aos 35 anos, na plenitude da maturidade psicológica, e em boa forma física, que foi para uma disputa olímpica com absoluta confiança de que poderia brilhar. Ele chegou à Grécia após uma preparação meticulosamente planejada, de 45 dias, na altitude de Paipa, na Colômbia.
Desde o início dos 42,195 km Vanderlei manteve-se no pelotão dianteiro, ao lado de fundistas como o recordista mundial Paul Tergat, do Quênia, a quem tinha inicialmente como referência. O percurso ele já conhecia, da disputa da Copa do Mundo de Maratona de 1997, também disputada na capital grega, quando ajudou o Brasil a ganhar bronze, com Luiz Antonio dos Santos e Osmiro Souza Silva.
Assumiu a ponta antes do km 20, conforme o plano traçado pelo treinador Ricardo D’Angelo, e liderava com 40 segundos de vantagem sobre o segundo colocado, o italiano Stefano Baldini, à altura do km 37.
Um incidente, que ganharia as manchetes de todo o mundo e passaria para a história olímpica, atrapalhou o paranaense de Cruzeiro D’Oeste, que trabalhou na lavoura na adolescência. Vanderlei foi empurrado por um manifestante que levava às costas mensagem confusa de teor religioso. Soube-se, logo depois, que se tratava de um irlandês, que já provocara confusões em outros eventos esportivos.
Os fiscais da prova, os voluntários e a segurança demoraram a agir. Vanderlei deve muito de sua recuperação ao apoio de populares que assistiam a prova naquele local, especialmente ao grego Polyvios Kossivas, que pulou as cordas que separavam o público dos corredores e liberou o brasileiro. Assim, o atleta pôde voltar à corrida, apesar da perda de tempo e do abalo emocional.
Vanderlei foi ultrapassado por Baldini e pelo americano eritreu naturalizado norte-americano Meb Keflezighi. Ao cruzar a linha de chegada, com a certeza da medalha de bronze, comemorou da forma tradicional: esticou os braços e fez o “aviãozinho”. Mereceu uma ovação das milhares de pessoas que assistiam à chegada, no histórico Estádio Panatinaiko, sede da primeira edição olímpica moderna, em 1896. Vanderlei cruzou a distância em 2:12:11, enquanto que Baldini levou o ouro com 2:10:55, e Keflezighi a prata, com 2:11:29.
Teve reação que valorizou ainda mais a medalha. Avaliou que o acidente prejudicou a prova, mas não fez críticas aos organizadores, nem menosprezou a conquista dos outros maratonistas e ficou feliz com o bronze. “Não esperava e não tive reação para me defender porque estava concentrado. Aquilo me atrapalhou bastante, porque parei e perdi o ritmo. Não sei se venceria, mas certamente terminaria em melhores condições.”
A CBAt e o COB pediram que Vanderlei fosse considerado campeão, juntamente com Baldini. O caso chegou à Corte de Arbitragem do Esporte (CAS), com sede em Lausane, na Suíça, mas o resultado foi mantido. Como reconhecimento, Vanderlei foi premiado com a medalha Pierre de Coubertain, honraria muito especial concedida pelo Comitê Olímpico Internacional.
Vanderlei mostrou-se fundista de talento desde os tempos de juvenil. Em 1994 foi convidado para puxar o ritmo (ser o coelho) da Maratona de Reims, na França. Cumpriu o acordo com os organizadores, marcou o tempo nos 21 km. Aí, como se sentia bem, decidiu continuar na prova e terminou em 1º lugar, com 2:11:06. O recorde pessoal – 2:08:31 – ele conseguiu na Maratona de Tóquio 1998, quando terminou em 2º lugar. Também tem o melhor resultado para a maratona disputada em território nacional – com 2:11:19, com a vitória em São Paulo. Bicampeão pan-americano (em Winnipeg 1999 e Santo Domingo 2003), ganhou a medalha de prata com a equipe brasileira nos Mundiais de Maratona em Revezamento de Copenhague, em 1996.
|
 |