| Aplicação de Alguns Conceitos Biomecânicos à Técnica de Passagem de Barreira
Marcos Santos Ferreira
Professor de Atletismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Técnico Nível I da IAAF
Setembro, 2002
INTRODUÇÃO
“Tronco baixo!”, “Para frente!”, “Pra cima da barreira!”. Essas são algumas expressões comumente usadas por pessoas que ensinam a técnica de passagem da barreira. Mas o que as leva a usá-las? Se a pessoa já foi atleta e ouviu repetidamente essas expressões de seu treinador, ela, obviamente, as usará quando tiver que ensinar a passagem da barreira. Se trata-se de um simpatizante do Atletismo, com bom senso de observação, ele provavelmente recomendará a execução de movimentos que observa nos grandes atletas. Mas se trata-se de um estudioso do Atletismo, ele as usará, não porque ouviu alguém dizer ou viu os outros fazerem, mas porque é capaz de fundamentá-las biomecanicamente e, por isso, sabe de sua importância para a passagem da barreira.
É a isso que se propõe este artigo. Ajudar as pessoas que trabalham (ou pretendem trabalhar) com o Atletismo a justificar cientificamente algumas ações do(a) barreirista. Destina-se, portanto, àqueles que querem ir além das aparências, que não se contentam com explicações na área do senso comum, que entendem que a compreensão das técnicas do Atletismo é condição básica para quem pretende ensiná-las.
COMPREENDENDO ALGUMAS LEIS DA FÍSICA
Centro de gravidade (CG)1 é um conceito básico e fundamental para a compreensão dos intervenientes físicos presentes no ato de passar a barreira. Ele pode ser entendido como o ponto a partir do qual atua a resultante do somatório das forças Peso que agem sobre o corpo, e que pode estar dentro ou fora desse.
Obs: 1 - Embora centro de massa seja o termo mais correto (nem sempre o centro de massa coincide com o centro de gravidade), estamos tratando, neste texto, centro de gravidade como sinônimo de centro de massa, uma vez que o primeiro termo é o que mais aparece nas obras que tratam de Biomecânica e Atletismo.
Sendo assim, é fácil compreender que a posição do CG varia em função da distribuição da massa corporal. Uma pessoa na posição anatômica, por exemplo, tem seu CG localizado aproximadamente na altura do umbigo, alguns centímetros à frente da vértebra L3 (Wirhed, 1986). Se ela eleva os membros superiores (MS), o CG também se eleva; se os posiciona à direita, o CG se desloca para esse lado e assim por diante (figura 1).

Figura 1 – Variação da posição do CG segundo a distribuição da massa corporal.
Segundo a 1ª Lei de Newton, "todo corpo continua em seu estado de repouso ou movimento retilíneo uniforme a menos que seja compelido a mudar esse estado por forças externas [grifo meu] exercidas sobre ele" (Hay, 1981, p.52). Um objeto em repouso sobre uma superfície sofre a ação das forças externas Normal (N) e Peso (P) que, no entanto, não alteram sua condição de repouso (figura 2, letra a). Algum erro na Lei de Newton? – poderia questionar o leitor. Absolutamente não, porque essas forças são opostas e se equilibram mutuamente, de forma que a sua resultante é nula. Portanto, podemos dizer que o significado da 1ª Lei de Newton fica melhor estabelecido pelo seguinte enunciado: todo corpo mantém seu estado de repouso ou de movimento retilíneo uniforme enquanto a resultante das forças que atuam sobre ele for nula. Vejamos um exemplo.
Quando impulsionamos um objeto pelo chão, três forças agem sobre ele após a perda de contato com a mão do lançador: as forças Peso (P), Normal (N) e a de Atrito (Fat) (figura 2, letra b). Dessas três forças, apenas a de atrito age no sentido de parar o movimento do objeto e é o que ocorre após algum tempo. Se não houvesse a força de atrito, porém, o objeto continuaria em seu movimento retilíneo uniforme (MRU) indefinidamente (figura 2, letra c), conforme explicita a 1ª Lei de Newton, uma vez que a resultante das forças Peso e Normal é nula. Portanto, a idéia fundamental da 1ª Lei de Newton é que um corpo não precisa estar sofrendo a ação de uma força para estar em movimento e que os estados de repouso e de MRU tendem a ser conservados.

Figura 2 – Forças que atuam (a) em um bloco no repouso, (b) durante e após a aplicação de uma força F
e (c) no movimento retilíneo uniforme (desconsiderando a Resistência do Ar).
Porém, quando um objeto é lançado ao ar, podemos afirmar que a sua trajetória se define no momento em que ele perde contato com o solo, pois a única força atuante passa a ser a força Peso . Como seu valor é conhecido (9,81 m/s²) e constante, é possível prever com exatidão a trajetória a ser descrita pelo CG do corpo lançado ao ar (figura 3, letra a). Vale lembrar que se a força Peso não existisse, o objeto continuaria em MRU, em direção ao espaço (figura 3, letra b).

Figura 3 – Trajetória do CG de um projétil (a) e a que ele descreveria na ausência da força da gravidade (b).
Nesse ponto da discussão, é importante distinguir objetos pontuais de objetos extensos. Nos objetos pontuais (uma diminuta bola de metal poderia ser citada como exemplo), seu CG confunde-se com o próprio corpo. Assim sendo, a trajetória de seu CG no ar confunde-se com a trajetória do próprio corpo. Quando, porém, um objeto extenso é lançado ao ar, a trajetória de seu CG não é a mesma das diferentes partes do corpo. Se é possível modificar a distribuição da massa desse corpo, que é o que ocorre quando alguém se move no ar, a trajetória do CG permanece a mesma, mas a posição do CG em relação ao corpo se altera. Trabalhemos, pois, com o exemplo da passagem da barreira.
Obs: Estamos desconsiderando a força da Resistência do Ar.
A PASSAGEM DA BARREIRA
Quando um(a) barreirista perde contato com o solo, após o ataque, a trajetória do seu CG já está definida. Os movimentos realizados no ar pelo(a) corredor(a) não alteram a trajetória de seu CG, pois esses movimentos produzem forças internas ao corpo, e não externas. Assim sendo, a posição do corpo no momento do ataque será fundamental para a definição da trajetória do CG do(a) corredor(a). Se ele(a) inclina o tronco à frente no momento do ataque à barreira, a trajetória do seu CG será mais rasante, pois será maior o componente horizontal da força exercida contra o solo. Por outro lado, se seu tronco se mantém ereto no momento do ataque (ação bastante comum entre iniciantes), a trajetória será mais verticalizada (figura 4).

Figura 4 – Influência da posição do tronco na trajetória do CG do corredor, no momento do ataque à barreira.
Quando, porém, o(a) corredor(a) realiza movimentos no ar, ele redistribui sua massa corporal, modificando a posição do CG em relação ao seu corpo. A trajetória do CG, que fôra definida ao final da impulsão, não se altera pois, assim como reza a 1ª Lei de Newton, movimentos realizados no ar não representam forças externas ao corpo.
Assim sendo, se na fase aérea da passagem da barreira o(a) corredor(a) eleva seu tronco, ele(a) leva sua massa corporal para cima e, por conseguinte, seu CG. Porém, como essa elevação não pode representar a alteração da trajetória do CG (senão estar-se-ia contrariando as leis de Newton), o que acontece é a subida do CG em relação ao corpo do corredor.
Em outras palavras, o corpo desce em relação à trajetória do CG, o que acaba sendo prejudicial à passagem da barreira (figura 5). Por outro lado, se o(a) corredor(a) inclina o tronco à frente, seu CG abaixa em relação ao corpo, ou seja, o corpo sobe em relação à trajetória do CG (figura 5). Por isso, a inclinação do tronco é imprescindível para uma ótima passagem da barreira. Além de facilitar a passagem do membro inferior (MI) de recuperação e reduzir a resistência do ar, a inclinação do tronco permite que o(a) corredor(a) possa horizontalizar sua impulsão sem que isso implique, necessariamente, o choque com a barreira. Ou seja, possibilita minimizar a oscilação do CG do(a) barreirista no plano sagital.

Figura 5 – Influência da ação do tronco na posição relativa do
CG do(a) barreirista, na fase aérea da passagem.
Seguindo o mesmo raciocínio, se o(a) barreirista mantiver seus MS e o MI de recuperação elevados logo após a passagem da barreira, seu MI de ataque tocará o solo mais cedo, o que acelerará a retomada de sua corrida (figura 6). Obviamente, essa elevação não pode ser exagerada a ponto de descaracterizar os movimentos da corrida de velocidade, o que poderia anular a vantagem obtida com a aproximação do corpo do(a) barreirista em direção ao solo.

Figura 6 – Influência da posição de MS e MI de ataque na posição relativa do CG.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pelo exposto, parece estar claro que o domínio de alguns conceitos biomecânicos é fundamental para a compreensão da técnica de passagem da barreira. Porém, os conceitos biomecânicos apresentados nesse artigo aplicam-se a todos os movimentos que envolvam a projeção do corpo no ar, como é o caso dos saltos em distância, em altura e com vara. Convidamos o(a) leitor(a) a aplicar esses conceitos a essas modalidades do Atletismo. Se o fizer, significa que compreendeu o que foi discutido nesse artigo. Se não, sugerimos a leitura de obras sobre Física/Biomecânica que podem ajudá-lo(a) nessa tarefa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
HAY, James G. Biomecânica das Técnicas Desportivas. 2.ed. Rio de Janeiro:
Interamericana, 1981.
WIRHED, Rolf. Atlas de Anatomia do Movimento. São Paulo: Manole, 1986. |