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Perfil do Treinador Brasileiro de Atletismo

"SUBSÍDIOS PARA A IMPLANTAÇÃO DE UM “PLANO NACIONAL PARA O DESENVOLVIMENTO DO ATLETISMO”

Nelio Alfano Moura
Treinador Nacional de Saltos
Confederação Brasileira de Atletismo

Trabalho apresentado na I Jornada de Palestras para Treinadores de Atletismo – Campeonato Brasileiro Juvenil – Maringá, 2002

INTRODUÇÃO

Em dezembro de 2001, a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) enviou a todas as federações estaduais um questionário a ser reproduzido e entregue aos treinadores de atletismo de cada estado. O objetivo era coletar dados que servissem para estabelecer um perfil inicial dos treinadores brasileiros de atletismo, bem como para fornecer subsídios para a implantação de um “Plano Nacional para o Desenvolvimento do Atletismo” (PNDA).

Programas nacionais – de algum tipo – são mantidos pelas principais federações de atletismo do mundo, como Grã-Bretanha, Estados Unidos, Cuba, Espanha, Alemanha e Itália, entre outras. Os países que mais se desenvolveram nos últimos 10 anos (Austrália, África do Sul, Grécia) também mantêm programas nacionais. Parece claro que a busca do alto rendimento deve ser acompanhada de esforços coordenados, que garantam o maior retorno possível para um dado investimento.

O presente estudo teve os seguintes objetivos:

  • Estabelecer um perfil do treinador brasileiro de atletismo;
  • Identificar necessidades e pontos fortes do atletismo brasileiro, na visão do treinador;
  • Propor áreas de atuação para um futuro Plano Nacional para o Desenvolvimento do Atletismo - PNDA.

METODOLOGIA

Um questionário com 24 questões (abertas e fechadas) foi enviado às Federações Estaduais, com a solicitação de reproduzi-lo e entregá-lo aos treinadores vinculados a elas. Um total de 83 treinadores, sendo 68 (81,93%) do sexo masculino e 15 (18,07%) do sexo feminino (Figura 1) enviaram suas respostas. Os dados foram analisados com procedimentos de estatística descritiva (média, desvio-padrão, freqüência). Algumas características desse grupo encontram-se na Tabela 1.


Figura 1. Proporção de treinadores brasileiros de atletismo, em função do sexo


Embora o número de respostas enviadas nos obrigue a ter cautela ao generalizar os dados, a pequena quantidade de treinadoras envolvidas com a modalidade representa uma situação indesejável. O ano de 1998 já havia sido escolhido pela IAAF o “Ano Internacional da Mulher no Atletismo”, e várias ações foram realizadas com o objetivo de aumentar o envolvimento da mulher em todas as esferas de atuação (atleta, treinadora, árbitro, dirigente, etc.), pois constatava-se que ela poderia estar mais representada em todas as áreas citadas, nos cinco continentes. O pequeno envolvimento quantitativo da mulher treinadora no Brasil é também espelhado nos demais países da América do Sul, e reflete o que ocorre nas demais funções associadas ao atletismo: há menos mulheres atletas, árbitros e dirigentes do que homens, em uma proporção ainda mais negativa do que se vê na maioria dos demais continentes. Na Conferência Global de Treinadores, realizada recentemente em Colorado Springs (Estados Unidos), esse foi um dos tópicos que mereceu uma sessão especial. Entre outras coisas, concluiu-se que aumentar as oportunidades para a mulher treinadora não é apenas uma questão de ser politicamente correto: essa é realmente a coisa certa a ser feita, pois ela se tornará um modelo que atrairá mais meninas para a prática. A oportunidade de termos homens e mulheres trabalhando juntos em um mesmo programa pode aumentar a qualidade desse programa.

  Idade Grupos (1 - 8) Categorias (1 - 6) Número de Atletas Tempo de atuação
Média 42,76 3,78 3,84 41,84 14,77
Desvio 18,14 1,41 0,71 53,03 17,68
Mínimo 22,83 1 1 7 1
Máximo 72,47 8 6 300 42

Tabela 1: Características do Treinador Brasileiro de Atletismo

Os dados mostrados na Tabela I indicam que treinadores brasileiros são relativamente experientes: 92,68% foram atletas, e o tempo média de atuação como treinador é de 14,77 anos. Têm também uma boa formação: 50% deles participam do Sistema de Formação e Certificação de Treinadores da IAAF, e 65,85% freqüentaram algum curso de pós-graduação. Ao que parece, oportunidades de participação em seleções brasileiras têm sido grandes, uma vez que 47,56% dos treinadores responderam que já foram convocados para ao menos uma seleção. Ao menos do que diz respeito à formação básica de nossos treinadores, parece que levamos vantagem sobre aqueles países onde não há exigência de formação superior para exercer a função de treinador: nos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra, entre outros, voluntários podem livremente atuar como treinadores, em praticamente qualquer nível.

Já os indicadores práticos são menos positivos: além de trabalhar com um número relativamente grande de atletas (41 atletas por treinador, em média), os treinadores brasileiros atuam com várias categorias, e a maioria não consegue se especializar em um grupo de provas.

As principais necessidades apontadas pelos treinadores brasileiros são as seguintes:

  • Pistas (treino / competição) – 46 citações
  • Material (treino / competição) – 34 citações
  • Capacitação Profissional – 22 citações
  • Intercâmbio Nacional e Internacional – 17 citações
  • Auxílio Direto ao Atleta – 15 citações
  • Detecção do talento / fomento à base – 12 citações
  • Patrocínios / Convênios – 12 citações
  • Apoio Multidisciplinar – 10 citações

Os seguintes foram os pontos fortes apontados pelos treinadores, nas regiões que trabalham:

  • Quantidade de talentos / miscigenação – 46 citações
  • Clima - 19 citações
  • Espaço Físico – 17 citações
  • Competições – 10 citações
  • Apoio da Federação / Confederação – 9 citações
  • Profissionais capacitados – 7 citações

As principais sugestões apresentadas pelos treinadores foram subdivididas nas seguintes categorias:

  • Capacitação do Treinador (Cursos / Publicações) - 10
  • Estágios Brasil e Exterior (Treinadores e Atletas) / Centros de Treinamento / Training Campings - 8
  • Política de Seleção e Desenvolvimento do Talento - 5
  • Incentivo Financeiro para os Atletas de Destaque - 3

CONCLUSÃO E SUGESTÕES

Baseados no perfil apresentado pelos treinadores brasileiros e na análise de suas sugestões, identificamos sete áreas que merecem atenção em um futuro PNDA:

  • Criação de um Programa de Capacitação e Atualização de Treinadores, independente do sistema IAAF;
  • Criação de um Programa Nacional de Detecção e Desenvolvimento de Talentos;
  • Campings de Treinamento freqüentes – no Brasil e no Exterior – dirigidos a atletas e treinadores das diferentes categorias;
  • Auxílio direto a atletas e treinadores, em desenvolvimento e de elite;
  • Incentivar a participação de mulheres na função de treinadora, o que poderá ter impacto positivo no envolvimento de atletas do sexo feminino com a modalidade;
  • Oferecer condições para que os treinadores se especializem em um menor número de provas (ou grupos de provas);
  • Oferecer condições para que os treinadores trabalhem com um número menor de atletas, e que se especializem de acordo com a etapa de desenvolvimento desses atletas.

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